Carta

Hoje não deu… Ontem comentei com meu colega que se completam três anos sem você…

Eu estava olhando o blog, que não entro a alguns anos, e o último post foi em 2014, prometendo escrever mais, sobre a minha vida aqui, para que quem mora longe pudesse acompanhar um pouco do meu dia a dia nesse país distante. A vida seguiu, e muito aconteceu. Nesse período até novembro de 2015, estive tentando viver minha vida normalmente, fracassando, porque minha cabeça estava em você. Como eu me preocupei esse tempo em como você estava se sentindo, se sofria, se tinha dor, se estava comendo, como ia seu tratamento. A vida não me deu uma folga porque minha cabeça estava preocupada com o seu bem estar. Muito aconteceu no meu trabalho, eu precisei de apoio, e você mesmo longe e com muito o que se preocupar, tentava me ajudar com palavras. Eu acompanhando seus últimos meses (sem saber) de longe, uma luz parece que entrou em mim me fazendo tomar a decisão de tirar férias imediatamente e ir ficar com você. Quando cheguei, vi você tão diferente, tão fraca, lutando para continuar se mostrando forte. Não é a toa que somos tão parecidas. Por dentro eu desmoronei. Por fora cresceu uma muralha de frieza e uma máscara de que tudo estava bem. Eu não sabia que seria o meu último mês com você. Eu disse a mim mesma que iria fazer o que pudesse para te ajudar no que fosse preciso. Cozinhei, tentei fazer você comer, fiquei ao seu lado. Mas um dos meus maiores arrependimentos foi não ser sincera o suficiente com você e mostrar como me doía ver você sofrer. Nesses momentos, me afastava, e sofria sozinha. Não queria mostrar fraqueza a você, que já estava passando pelo pior. Foram momentos que perdi, dentro dos últimos que passei com você. Com muita relutância e dúvida, eu voltei para a Suécia. Duas semanas depois você deu seu último suspiro. O abraço que você me deu no aeroporto, quando senti que você tirou todas as forças que tinha para se despedir, eu entendi que era o último. Eu não estava ao seu lado nos seus últimos momentos, mas nós já havíamos compreendido espiritualmente que não estaria. Talvez porque teria sido mais difícil para você ir e para eu entender e seguir. Esses três anos sem você, como descrever. Eu flutuando num vácuo escuro, sozinha, sem esperança ou expectativas. Meus amigos e familiares que tanto me apoiam e me dão carinho, não me entendam mal. Se não fosse por vocês eu não sei se ainda estaria aqui, lutando e vivendo. Eu continuei a minha vida, mas por dentro existe um espaço vazio, que ainda estou tentando compreender e criar uma estratégia para continuar. Sua ausência física traz tanta saudade, saudade que dói, que me faz estar no piloto automático, sair correndo do trabalho porque as lágrimas não quiseram esperar, chegar em casa, deitar em posição fetal e chorar por horas, até resolver escrever para ver se ajuda a colocar para fora todo esse sentimento. Já reli todo o nosso histórico de conversa, olhei fotos de nossos momentos, e agora escuto as músicas que você gostava e me fazem pensar em você.

Algumas vezes tentei conversar com você, eu sei que me ouve, mas é tão difícil sem a interação que eu compreendo. Queria contar tudo o que vem acontecendo na minha vida, as mudanças, os obstáculos, as frustrações. Só você se preocupava comigo, sabia quando eu precisava de colo e carinho. Como sinto falta da sua preocupação com o meu bem estar, com a minha felicidade, em saber como foi o meu dia. Muitas pessoas foram e são essenciais para me ajudar a me manter de pé sem você. Mas como viver sem alguém insubstituível? É difícil, muito difícil. E eu venho tentando. Ganhando e perdendo outras pessoas, umas por opção, outras não. Mas é em você que penso todos os dias, você que eu queria contar como foi o meu dia, o que vi, o que fiz, o que alcancei, o que perdi. E cada passo, mesmo significando muito para mim, são insignificantes quando sei que você não está aqui para que eu possa dividi-los com você.

Eu espero que mesmo sem entender qual seu estado hoje, você esteja bem. Fico tranquila em saber que você está perto de pessoas muito queridas, mas sei que você também sente a minha falta, como eu sinto a sua. Eu não sei quanto tempo viverei, mas me pergunto como será viver esse tempo sem te ver e te abraçar. Será mesmo que o tempo cura tudo? Quando se trata do que você significa para mim, eu não acredito nisso. Continuemos tentando descobrir maneiras de vivermos em planos diferentes.

Fique bem mamãe,

Com amor,

Sua filha

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2 comentários sobre “Carta

  1. Impossível não me derramar em lágrimas com esse texto. Lamento muito sua perda, não posso mensurar a sua dor. Recentemente minha mãe quase perdeu a visão por negligência médica, joguei tudo para o alto, trabalho, compromissos, tive que viajar quase mil km até a capital para que ela fosse submetida a uma cirurgia de emergência que amenizaria o problema, após a cirurgia, foram 10 dias de repouso absoluto e eu sozinha cuidando dela, o caso não era de vida ou morte, mas o sofrimento dela me despedaçava e eu fingindo-me de forte para que ela não esmorecesse, sei que ela também tentava não transparecer o que sentia para não me sobrecarregar. Mãe é uma bênção de Deus, nossa ligação é completa e eu espero você consiga superar a ausência, que não doa tanto, que você seja rodeada de amor e que as lembranças te encham de ternura. Um forte abraço! Fique em paz.

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